Três contribuições para o debate sobre microblogs

terça-feira, 25 de maio de 2010

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O que você está fazendo agora?
Três contribuições para o debate sobre microblogs
Carla Rodrigues
Introdução
A partir de uma análise do microblog Twitter, este artigo pretende discutir
três aspectos relativos ao uso de ferramentas de rede social e interação que
se valem da combinação web/telefone celular para veiculação e atualização
de mensagens: 1. a compressão espaço/tempo proporcionada pelo crescente uso de
dispositivos móveis integrados em rede; 2. o aspecto da vigilância voluntária a que
se entregam os usuários desses dispositivos; 3. a lifestream e a configuração do sujeito
como uma referencialidade aberta, na medida em que os microblogs funcionam
como agregadores de conteúdo que apresentam o seu autor como um conjunto de
links.
A partir desses três itens, discute-se como as Tecnologias de Informação e
Comunicação (TICs) estão transformando o “estar conectado em rede” em um
estado permanente do sujeito.
O Twitter – características e funcionalidades
Um sistema de publicação de mensagens de até 140 caracteres que permite
envio e recebimento de textos pelo telefone celular. Definido pelo seu criador como
um “sistema telegráfico da web 2.0”, o Twitter1 faz basicamente uma pergunta – “o
que você está fazendo agora?” – e parte do princípio de que a sua rede social está
tão genuinamente interessada nessa informação que vai te “seguir” (tradução para
follow) para saber a resposta.
ALCEU - v. 9 - n.18 - p. 148 a 161 - jan./jun. 2009
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Criado em 2006 na Califórnia pela startup Obvious Corp, o Twitter alcançou
cinco milhões de usuários em 2008 e oferece duas maneiras de o assinante ficar
atualizado: via web ou no celular, pelo recebimento de mensagens de texto ou da
instalação de aplicativos que mantém o sistema ativo no telefone. Para o envio de
mensagens, é possível atualizar o Twitter por uma interface adaptada para aparelhos
móveis2 ou encaminhar os textos via SMS, em serviço disponível apenas nos EUA3.
O Twitter é a mais popular das ferramentas de microblogs – multiplataforma de
atualizações curtas, que combina características de blog e rede social –, e as suas
possibilidades de uso ainda estão sendo descobertas.
O ano de 2008 foi decisivo para o crescimento do sistema, como mostra o
relatório State of Twittesphere4: foi quando 70% dos usuários aderiram ao sistema, em
média de cinco a 10 contas foram abertas por dia, 35% dos usuários do sistema tinham
cerca de 10 seguidores e 9% dos usuários não seguiam nem eram seguidos.
Tendo como objeto de estudo o Twitter, os pesquisadores Akshay Java e Tim
Finin identificaram nele três tipos de usuários: 1. as fontes de informação já consagradas
nas mídias convencionais; 2. a rede de amigos e familiares; 3. as pessoas que
estão apenas buscando informações, e não têm seguidores, porque não publicam
e apenas seguem outros tuiteiros. Java e Finin apresentam classificação dos quatro
principais tipos de uso do Twitter: 1. informações sobre rotinas diárias, conteúdo
mais comum no Twitter; 2. conversas diretas entre pessoas ou grupos, recurso
utilizado por 21% dos usuários; 3. compartilhamento de links interessantes e indicação
de bons links; 4. veiculação de notícias que são importadas por mecanismos
automáticos, como fazem grandes empreendimentos de mídia (Java; Finin, 2009).
É possível seguir grandes jornais como o New York Times, que atualiza suas áreas
de notícias no Twitter automaticamente.
O que se observa é que os grandes meios de comunicação ainda estão apenas
publicando conteúdos automaticamente e por enquanto a maioria deles se vale de um
sistema de integração5 que permite ao usuário importar conteúdo de outros sites via
Twitter, que funciona assim como mais uma plataforma de veiculação do conteúdo
já produzido. Blogueiros também incorporaram os microblogs na divulgação dos
seus textos6, que podem estar misturados a curtos registros pessoais.
Além de publicar pequenas notas, a área de interação do Twitter permite que
os seguidores de um determinado canal enviem mensagens. É possível escolher
entre escrever diretamente – o que as torna privadas – ou enviar respostas públicas,
funcionalidade que deve ser previamente autorizada por quem está sendo seguido.
Nos dois casos, o aplicativo mantém a comunicação direta, mas quando as respostas
são publicadas o tipo de interação estimula a participação de diferentes usuários na
mesma conversa.
O Twitter promete ao usuário a possibilidade de estar “hiperconectado” com
seus amigos e sempre saber o que eles estão fazendo. O que pode parecer uma
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avalanche de informações não necessariamente úteis é apresentado assim: “Twitter
coloca você no controle e se torna um moderno antídoto para a sobrecarga de
informação”. O sistema tem como aliado uma ampla e crescente base de telefones
móveis dotados de capacidade de navegação e de instalação de aplicativos.
Aos iniciantes no Twitter, o colunista de tecnologia do New York Times, David
Pogue, conta ter ficado impressionado com o uso da ferramenta como fonte de acesso
à rede de contatos. Feita uma consulta, em 30 segundos duas pessoas responderam.
“Fiquei impressionado”, conta Pogue em artigo7 que ele encerra classificando o
Twitter como um canal com a capacidade de comunicação em tempo real, P2P
(pessoa-a-pessoa), como nenhum outro. Pogue sugere que o usuário abandone a
pergunta inicial e procure uma utilidade real para a ferramenta. De fato, a provocação
inicial tem sido superada pelos diversos tipos de uso que o Twitter permite, mas
ainda marca o tipo de interação que o sistema propõe e oferece.
Celulares e a hipérbole da virtualidade
Durante a campanha à presidência de Barack Obama, o Twitter foi amplamente
utilizado como forma de comunicação com seu eleitorado8. A pergunta inicial
foi substituída por informação e mobilização: Obama usou o Twitter para convocar
eleitores ao recadastramento, divulgar endereços de locais de votação, anunciar sua
vitória da convenção democrata, publicar links para vídeos com discursos no Youtube
e atualizar sua agenda de compromissos de campanha, além de fornecer informações
com exclusividade. Quando escolheu Hillary Clinton para sua equipe de governo,
divulgou a notícia em primeira mão aos seus seguidores no Twitter para só depois
passá-la à imprensa. Dois dias depois de sua posse, mais de 15 mil usuários já haviam se
cadastrado como seguidores das informações postadas pela Casa Branca no Twitter9.
Depois de uma pausa nas atualizações quando as urnas o consagraram vitorioso,
em novembro, Obama voltou a oferecer no Twitter atualizações aos seus
seguidores, que puderam acompanhar a cerimônia de posse numa área especial em
que as informações eram claramente voltadas aos leitores via celular10: “Se você ainda
estiver em trânsito, sugerimos que você pegue a Rua 14 pelo oeste. Esteja agasalhado
porque a sensação térmica é de 12 graus”.
As mensagens destinadas a usuários em trânsito, que serão lidas nos celulares,
têm razão de ser: nos EUA, entre janeiro e julho de 2008 foram vendidos nove
milhões de aparelhos celulares inteligentes, registrando crescimento de 71% nos
negócios11 em relação ao mesmo período do ano anterior12 e maior percentual de
aumento de vendas no mundo. Para os proprietários de smartphones, o Twitter oferece
inúmeros aplicativos13 que facilitam o uso da ferramenta no celular, tanto para
o envio como para o recebimento de atualizações em tempo real. Para usuários de
aparelhos comuns, também é possível receber esse tipo de informação via SMS.
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Para além da expressão pessoal que esses usuários buscam na web, tema já
bastante trabalhado por autores como Paula Sibilia14, essas formas de interação social
oferecem um caráter de instantaneidade que a web, sem a convergência com o
celular, não pode prover, apesar de toda a expansão do acesso via rede sem fio e do
crescimento na venda de notebooks15.
Aqui, vou seguir as afirmações de André Lemos, para quem “o telefone celular
é a ferramenta mais importante de convergência midiática hoje” (Lemos, 2007: 1)
e apresentar, nas suas características principais, o que o autor chama de três princípios
da cibercultura: “qualquer um pode fazer vídeos e fotos; essa produção só faz
sentido em conexão (princípio em rede); e essa conexão modifica práticas ‘sociais e
comunicacionais’ (princípio de reconfiguração)” (Lemos, 2007: 32). Ainda segundo
Lemos, os aparelhos são “suporte para sociabilidade”, característicos das formas
sociais que surgiram com as TICs.
Os microblogs – que já ganharam ferramenta específica de busca16 – chegaram
como mais um desses suportes de sociabilidade, oferecendo mobilidade na leitura
e na atualização. Note-se que, com pacotes de dados de acesso à Internet via celular
com aparelhos cada vez mais parecidos com computadores, a interligação entre um
microblog na palma da mão e links disponíveis na web é rápida e fácil. A ferramenta
já está sendo utilizada em diversas experiências de veiculação de notícias limitadas
a 140 caracteres17.
São muitos os autores que indicam como as TICs têm impacto na experiência
de temporalidade. Partindo do mesmo ponto indicado por Deleuze – as máquinas
não são determinantes, mas expressam a maneira como estamos interessadas em
utilizá-las –, este artigo pretende refletir numa perspectiva não-determinista tão bem
expressa pelo filósofo: “É fácil fazer corresponder a cada sociedade certos tipos de
máquina, não porque as máquinas sejam determinantes, mas porque elas exprimem
as formas sociais capazes de lhes darem nascimento e utilizá-las” (Deleuze, 1992:
223).
Se a modernidade era a época do primado do tempo lógico e subsequente, na
qual passado, presente e futuro se sucediam em ordem linear, na pós-modernidade
poder-se-ia dizer que a sociedade busca tipos de máquinas que permitam a afirmação
do presente, que vão desde a expansão e o aprimoramento dos telefones móveis, até
o crescimento da internet sem fio e a oferta de notícias em tempo real, mecanismos
de aprofundamento da compressão espaço/tempo que marca a vida contemporânea.
Quem bem resume as idéias de David Harvey sobre a permanente sensação de
“agora” é Marilena Chaui:
A fragmentação e a globalização da produção econômica engendram dois
fenômenos contrários e simultâneos: de um lado, a fragmentação e dispersão
espacial e temporal e, de outro, sob os efeitos das tecnologias de informação,
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a compressão do espaço – tudo se passa aqui – sem distâncias, diferenças nem
fronteiras – e a compressão do tempo – tudo se passa agora, sem passado e
sem futuro (Chaui, 2004: 151).
Assim, da mesma forma que a pergunta – “o que você está fazendo?” –, os
microblogs remetem à sociedade de controle, na medida em que oferecem uma
possibilidade de vigilância constante sobre o que o seu “seguido” está fazendo; quando
acrescentam o “agora”, trazem para a interação também a questão do tempo. O
e-mail – mesmo aquele ao alcance da palma da mão18 – e as ligações de voz, sempre
condicionadas à disponibilidade de sincronicidade do usuário, estariam se tornando
obsoletos diante da instantaneidade que o Twitter promete.
Autores como David Harvey, Jean François Lyotard e Zigmunt Bauman apontam
para a questão da destemporalização da pós-modernidade, tema que se articula
com a discussão que proponho sobre o uso dos microblogs como ferramentas que
associam o ideal de presentificação com o da virtualidade total, em que o sujeito não
precisa estar em lugar nenhum, desde que esteja conectado em rede. A expansão
dos microblogs via celular, como o Twitter, confirmaria essa crescente demanda
por tempo real?
É Harvey quem explora os aspectos de volatilidade e velocidade que marcam
a condição pós-moderna não apenas nos seus aspectos políticos e econômicos, mas
também na vida social. Para o autor, a compressão espaço/tempo obriga as pessoas
a lidar com “a descartabilidade, a novidade, e as perspectivas de obsolescência instantânea”
(Harvey, 2001: 258):
(...) hoje é tão importante aprender a trabalhar com a volatilidade quanto
acelerar o tempo de giro. Isso significa ou uma alta adaptação e a capacidade
de se movimentar com rapidez em resposta a mudanças de mercado, ou o
planejamento da volatilidade (Harvey, 2001: 259).
À compressão temporal associa-se a questão da espacialidade. Bauman classifica
os sujeitos da pós-modernidade em duas categorias: os turistas e os vagabundos (Bauman,
2001: 114). Os turistas ele define como aqueles que ligam e desligam o mundo,
sem deixar nele qualquer marca duradoura. Para os turistas, as chaves do mundo
funcionam com tanta facilidade que tornam o mundo “flexível, dócil, esborrável”. Já
os vagabundos Bauman (2001: 118) define como seres que “se movem porque acham
o mundo insuportavelmente inóspito”. A interseção entre os turistas e os vagabundos
está no movimento. “O eixo da estratégia de vida pós-moderna não é fazer a identidade
deter-se – mas evitar que se fixe”, afirma Bauman (2001: 114). Microblogs via
celular permitem esse movimento constante em que turistas ou vagabundos podem
se deslocar mantendo sua conexão nas redes sociais que integram.
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Bauman associa o movimento ao crescente uso dos telefones móveis quando
afirma que os “celulares assinalam, material e simbolicamente, a derradeira libertação
em relação ao lugar” (Bauman, 2004: 81). Para ele, uma das principais características
dos aparelhos é acabar com a diferença entre os lugares. Onde você está deixa de ser
importante porque, em qualquer lugar que você esteja, está conectado.
A proposta tecnológica das ferramentas de produção dos microblogs articulase
tanto com as questões temporais discutidas por Harvey quanto com as espaciais
apontadas por Bauman, na medida em que combina várias configurações: microblogs
são capazes de conectar seus usuários em rede sem exigência de nenhum outro
equipamento além do aparelho celular, cuja tendência crescente seria a de funcionar
como um substituto ainda mais portátil do computador.
Vigilância voluntária
Descrito por Michel Foucault a partir da máquina panóptica de Jeremy Bentham,
a vigilância definia, segundo o filósofo, a sociedade disciplinar, estruturada
a partir da arquitetura de prisões, escolas, fábricas e hospitais. Na imagem original
de Bentham, uma torre no centro de uma construção circular permitia que poucos
vigiassem todos. Com a passagem da sociedade disciplinar para a sociedade de
controle, a mesma vigilância deixa de depender da presença do vigia e passa a ser
exercida pelo amplo aparato tecnológico proporcionado pelas TICs, como câmeras,
chips e satélites.
No sinóptico, seguindo a leitura que Zigmunt Bauman faz de Thomas Mathiesen,
a equação se inverte, e muitos vigiam poucos. O autor explica essa inversão:
O sinóptico é, por sua natureza, global; o ato de vigiar desprende os vigilantes
de sua localidade, transporta-os pelo menos espiritualmente ao ciberespaço,
no qual não mais importa a distância, ainda que fisicamente permaneçam no
lugar. Não importa mais se os alvos do sinóptico, que agora deixaram de ser
os vigiados e passaram a ser os vigilantes, se movam ou fiquem parados. Onde
quer que estejam e onde quer que vão, eles podem ligar-se – e se ligam – na
rede extraterritorial que faz muitos vigiarem poucos. O panóptico forçava as
pessoas à posição em que podiam ser vigiadas. O sinóptico não precisa de coerção
– ele seduz as pessoas à vigilância (Bauman, 1999: 60, grifos do autor).
Para Bauman, o sinóptico é marcado pela idéia de que poucos merecem ser
seguidos – ele usa como exemplo as celebridades cuja vida glamourosa é seguida por
muitos. “De onde quer que venham, no entanto, todas as celebridades exibidas colocam
em exibição o mundo das celebridades – um mundo cuja principal característica
é precisamente a condição de ser observado”, diz o autor (Bauman, 1999: 61).
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No ambiente de hiperconexão proporcionado por ferramentas como o Twitter,
elas seriam concretizadas como uma espécie de hipérbole do “show do eu” – para
usar a expressão de Sibilia –, numa entrega voluntária à vigilância proporcionada
pela hiperconectividade. Microblogs exerceriam esta “sedução à vigilância” a que
se refere Bauman.
Se, como tão bem aponta Sibilia, blogs e outras ferramentas da Web 2.0
oferecem a possibilidade de um show de intimidade, a hipótese que discuto neste
trabalho mostra o ambiente multiplataforma de microblogs como um espaço que
pode unir, numa só ferramenta, exposição da intimidade com atualização em tempo
real, oferta de vigilância espontânea e conectividade total, superando as piores
previsões de Gilles Deleuze para a sociedade de controle. “Não há necessidade de
ficção científica para conceber um mecanismo de controle que dê, a cada instante,
a posição de um elemento em espaço aberto, animal numa reserva, homem numa
empresa (coleira eletrônica)”, dizia o filósofo (Deleuze, 1992: 224). Embora a associação
mais imediata pudesse ser com o GPS e seus mecanismos de localização por
satélite, o que se observa é que a resposta à provocação inicial do Twitter – “o que
você está fazendo agora?” – passa a prover esse tipo de informação voluntariamente,
como o sinóptico sedutor de Bauman.
Um pequeno exemplo de como os usuários do Twitter informam sua posição
a cada instante está na área do Twitter do jornalista Paulo Roberto Pires19, onde há
dois tipos de conteúdo: títulos com links para os textos do seu blog e mensagens
publicadas pela plataforma móvel do Twitter20. Alguns exemplos ilustram o uso do
espaço para, de fato, responder à pergunta que o Twitter propõe:
o verão começou. E no jobi21. 9:01 PM Jan 7th from mobile web
Flores para Iemanjá 1:54 PM Dec 31st, 2008 from mobile web
Acaba, 2008, acaba 1:53 PM Dec 31st, 2008 from mobile web
no almoço pós-Natal 3:21 PM Dec 26th, 2008 from mobile web
É um tipo de registro mais pessoal do que os textos publicados no seu blog22
e que dão aos seguidores de Paulo Roberto Pires a possibilidade de saber dos seus
humores, lugares que freqüenta e atividades cotidianas, informações que não estão
disponíveis no blog, dedicado a discutir temas sobre cultura na versão online da
revista Bravo. Nesse tipo de uso de Pires, a ferramenta se confunde com o Facebook,
rede social que parte da mesma pergunta e recentemente passou a propiciar
integração com o Twitter.
Os usuários têm acesso a aplicativos que permitem o intercâmbio de mensagens
entre um e outro: o usuário do Facebook pode importar para o seu perfil
as mensagens publicadas no Twitter e pode usar o Facebook como instrumento de
atualização da sua área no Twitter. As duas ferramentas provocam o usuário com a
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mesma pergunta – “o que você está fazendo agora?” – e atuam como parceiras na
rede, exemplificando a idéia de interação geral das ferramentas tal como será descrito
por David de Ugarte a seguir.
Lifestream e a referencialidade aberta da web
Além de articular as características exploradas até aqui – compressão espaçotemporal
através de uma rede que se move com o usuário e a entrega à vigilância
voluntária – ainda é importante tentar demonstrar como as possibilidades tecnológicas
permitem ao usuário do Twitter se apresentar como um grande conjunto
de referências abertas e manter sua área pessoal atualizada a partir de uma remessa
infinita de links e referências. Ao sujeito caberia configurar essa rede de referencialidades
que o definiria.
Para isso, é preciso que o site forneça um feed de notícias em RSS23, um formato
de conteúdo intercambiável que permite a importação e exportação automática de
textos publicados, que podem ser reunidos num agregador desse conteúdo24. Essa
lógica de agregação a partir do sujeito quem explica é Ugarte, para quem está em
curso um processo de upgrade da Web 2.0 para a versão 2.1 que teria três principais
características: a possibilidade de reunir num só lugar os serviços já existentes da
Web 2.0, o crescimento de blogs que se tornam nós de rede – não mais a publicação
autoral, mas a distribuição de informações do seu entorno –, tudo isso baseado em
RSS como o “sangue digital” que alimenta o fluxo da blogosfera. Com essas características,
Ugarte propõe a Web 2.1 como uma espécie de bricolagem, em que tudo
é só referencialidade, link, conexão.
A integração a que ele se refere concretizaria o conceito de lifestream – uma
espécie de transmissão contínua da vida. Definida como um registro online das
atividades diárias de uma pessoa, inclui a convergência de todas as informações e
referências do sujeito, que apareceria não mais apenas como produtor da sua escrita,
mas também como uma referência a outros objetos – textos que escreve ou lê,
músicas, fotos – que bastariam para defini-lo.
Na lifestream, o sujeito seria fornecedor de um RSS completo sobre si, com
informações com os textos que escreve e que lê, detalhes sobre sua vida pessoal,
suas fotos, os links que considera relevantes, as músicas que ouve, os vídeos a que
assiste25 ou produz. Essa reunião serviria para demonstrar as afirmações de Sibilia:
“as escritas de si constituem objetos privilegiados quando se trata de compreender a
constituição do sujeito na linguagem (ou nas linguagens) e a estruturação da própria
vida como um relato – seja escrito, audiovisual ou multimídia” (Sibilia, 2008: 35).
Nos microblogs essa escrita de si torna-se ainda mais aberta, porque se faz a partir
da reunião de links e referências.
Quatro relatórios com as atividades anuais de Nicholas Feltron26, 31 anos,
morador de Nova York, oferecem informações quantitativas que consolidam seu
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perfil e estilo de vida: em 2008, Feltron ficou quatro dias doente, fez 545 viagens
de metrô, visitou sete museus, foi a 20 festas de aniversário, foi 14 vezes ao cinema,
leu 14 livros e tirou 1.468 fotografias. Quando foi publicado, no último dia
13 de janeiro, os 293 seguidores de Feltron no Twitter foram comunicados com
a seguinte mensagem: “querida Internet, a minha documentação elaborada sobre
um ano simples está agora online”27. Feltron é idealizador do site Daytum28, que
promete “rastrear qualquer coisa que possa ser contada e mostrar os resultados
imediatamente”, e desde 2005 faz do seu próprio relatório anual a demonstração
do tipo de uso que seu sistema pode ter. O documento que ele apresenta é um
conjunto de páginas navegáveis com dados quantitativos, gráficos, mapas e links
externos que demonstram algumas das informações publicadas e exemplifica bem
o que Lemos explica como sendo uma “subjetividade exteriorizada, desterritorializada,
efêmera”. Diz o autor:
A vida comum transforma-se em algo espetacular (atrai e prende o olhar)
e ao mesmo tempo especular (reflete o olhar, o espelho). Não há histórias,
aventuras, enredos complexos ou desfechos maravilhosos. Na realidade, nada
acontece, a não ser a vida banal (Lemos, 2007: 38).
A lifestream quantificável de Feltron, os microblogs multiplataforma como o
Twitter e as ferramentas de agregação de conteúdo configurariam a possibilidade de
pensar o sujeito conectado como efeito de uma remessa infinita de referências?
Ao pensar os aspectos da hipertextualidade, George Landow faz uma ligação
com o pensamento de Jacques Derrida, para quem a linguagem é uma referencialidade
aberta. Para Landow, é Derrida quem melhor enfatiza a abertura textual, a
intertextualidade e a irrelevância da distinção dentro/fora de um texto, características
apontadas por Landow também no hipertexto. O autor define a hipertextualidade
como um sistema intertextual que dá forma aos pensadores da linguagem, como
Derrida e Roland Barthes, que eu cito:
Nesse texto ideal, as redes são múltiplas e se entrelaçam, sem que nenhuma
possa dominar as outras; esse texto é uma galáxia de significantes, não uma
estrutura de significados; não tem início, é reversível; nele penetramos por
diversas entradas, sem que nenhuma possa ser considerada principal; os
códigos que mobiliza perfilam-se a perder de vista, eles não são dedutíveis (o
sentido, nesse texto, nunca é submetido a um princípio de decisão e sim por
lance de dados); os sistemas de sentido podem apoderar-se desse texto, absolutamente
plural, mas seu número nunca é limitado, sua medida é o infinito
da linguagem (Barthes, 1992: 39, grifo do autor).
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Em Derrida, os significantes só são compreensíveis a partir de uma cadeia
de significantes, num jogo de remetimentos e referências em que um significante
depende do seu anterior e do seu posterior para fornecer algum “sentido”. Isso que
o filósofo chama de “jogo de remetimentos” promove uma produção constante
de diferenças. Importante comentador da obra derridiana, Geoffrey Bennington
utiliza o exemplo do dicionário para demonstrar esse processo, lembrando que,
se procurarmos no dicionário o significado de um significante desconhecido, só
encontraremos outros significantes, nunca um significado, num jogo infinito que
nos leva a só compreender um significante segundo sua posição em relação a outros
significantes.
“Um significado não é mais do que um significante posto numa certa posição
por outros significantes: não existe significado ou sentido, só há ‘efeitos’”, diz
Bennington (Bennington e Derrida, 1996: 34). No jogo de referencialidades que
os microblogs oferecem, o sujeito apareceria como “efeito” das suas ligações, que
podem estar dentro (conteúdo que ele mesmo produz) ou fora (links externos para
textos, áudio ou vídeos que o agradam e o interessam), concretizando o que Derrida
escreveu em Gramatologia, obra de 1967: “Há coisas, águas e imagens, uma remessa
infinita de uns aos outros, mas sem nascente” (Derrida, 2004: 29).
Assim, quando o RSS permite que um microblog se constitua a partir da reunião
de uma série de referencialidades abertas que são trazidas pelo usuário como
forma de configuração do seu perfil, o que se teria seriam sujeitos que apresentam
narrativas de si a partir do apontamento de links que servem para defini-lo, nessa
remessa infinita de uns aos outros.
Considerações finais
O que se pretendeu apresentar aqui foram questões suscitadas pelo uso dos
microblogs, cujas características permitiriam a sua associação às ferramentas de
concretização da “alta adaptação e a capacidade de se movimentar com rapidez” a
que se refere Harvey. Embora esses traços já tenham sido identificados por diversos
autores que acompanham o desenvolvimento da Web 2.0, busquei demonstrar
foi que a promessa de hiperconectividade estaria apontando para uma hipérbole
das características da Web 2.0. Quando Ugarte fala em uma versão 2.1 – dando a
idéia de um upgrade –, indica a hipótese de mais um passo em direção à prometida
combinação entre ferramentas de sociabilidade, tempo real e novas possibilidades
de configuração do sujeito.
Finalizo apresentando como Lyotard – em 1979, portanto muito antes da
chegada da Web 2.0 – pensou o “eu” a partir de uma rede de relações “mais complexa
e móvel do que nunca”:
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Está sempre, jovem ou velho, homem ou mulher, rico ou pobre, colocado
sobre os nós dos circuitos de comunicação, por ínfimos que sejam. É preferível
dizer: colocados nas posições pelas quais passam mensagens de natureza
diversa (Lyotard, 2000: 28).
O autor falava em “‘atomização’ do social em redes de jogos de linguagem”
(Lyotard, 2000: 31) para demonstrar a crescente demanda pela flexibilidade dos enunciados.
Por um lado, o que as ferramentas mais recentes trazem são as possibilidades
de realização dessa demanda de flexibilidade. Por outro lado, a articulação entre os
microblogs, a convergência entre web e os dispositivos móveis estaria transformando
o “estar conectado” da condição pós-moderna em condição permanente de conexão,
que se imporia também como condição de existência.
Carla Rodrigues
Professora da PUC-Rio
carla@puc-rio.br
Notas
1. www.twitter.com
2. m.twitter.com
3. No Brasil, o site http://sms.blog.br/ oferece aos tuiteiros a possibilidade de enviar
textos via celular mediante assinatura gratuita, até 20 de janeiro de 2009, data da
última consulta, mas ainda não existe a possibilidade de receber as atualizações via
SMS.
4. http://cdnqa.hubteam.com/State_of_the_Twittersphere_by_HubSpot_Q4-2008.
pdf
5. http://twitterfeed.com/
6. Pedro Doria (www.pedrodoria.com.br) atualiza seu espaço no Twitter (www.
twitter.com/pd_weblog) com pequenos resumos do que publica no blog, favorecendo
a interação entre as duas plataformas. A ferramenta funciona como forma de
incremento dos leitores do blog na medida em que os remete diretamente ao
site. Todas as notas começam com “Agora, no Weblog”, são seguidas do mesmo
título do texto que está no blog e remetem, via link, para o site, num processo
automatizado.
7.http://www.nytimes.com/2009/01/15/technology/personaltech/15pogue-email.
html?pagewanted=1&_r=1&partner=permalink&exprod=permalink
8. http://twitter.com/BarackObama
9. http://idgnow.uol.com.br/internet/ideia20/
10. http://twitter.com/obamainaugural
11. http://www.npd.com/press/releases/press_080908.html
12. Embora o percentual de crescimento na venda de celulares inteligentes nos EUA não
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seja comparável ao brasileiro em termos de tamanho nem de crescimento, o mercado
nativo acelerou na corrida pela mobilidade. Operadoras de telefonia estimavam alcançar
a base instalada de 800 mil smartphones até o final de 2008, segundo o IDG
idgnow.uol.com.br/telecom/2007/07/24/idgnoticia.2007-07-24.4808755460/>. O
número ainda é percentualmente insignificante em relação aos 106 milhões de usuários
de celulares no país, mas chamam a atenção as taxas de crescimento: eram apenas 300
mil usuários em dezembro de 2007.
13. Os desenvolvedores do Twitter oferecem a API (http://apiwiki.twitter.com/) do
software e a maioria dos aplicativos é desenvolvida em esquema de desenvolvimento
colaborativo e oferecido gratuitamente.
14. Este artigo pretende dialogar com as idéias apresentadas pela autora em seu
trabalho sobre a exposição da intimidade na web (Sibilia, 2008).
15. Em 2008, a venda de notebooks ultrapassou a dos computadores de mesa tanto
nos EUA quanto no Brasil, tendência esperada para a base instalada de PCs em
todo o mundo. O Worldwide Quarterly PC Tracke mostra que, enquanto as vendas
mundiais de desktops devem apresentar uma taxa de crescimento médio anual de
3,8% ao ano até 2011, os portáteis sustentarão um crescimento médio de 16,1% ao
ano, no mesmo período. Como resultado, os portáteis representarão mais de 50%
de toda a base de PCs no mundo em quatro anos, e a média de crescimento geral do
mercado de PCs será de 9,1% até 2011. < http://idgnow.uol.com.br/computacao_
pessoal/2007/03/20/idgnoticia.2007-03-20.5440272066/>
16. http://www.twingly.com/microblogsearch
17. Fernando Firmino da Silva explora o uso jornalístico dessas ferramentas,
discutindo como o que ele chama de “ambiente móvel de produção” poderia vir
a reestruturar o campo do jornalismo no que diz respeito à produção e difusão da
informação, que ganharia ainda mais instantaneidade (Silva, 2008: 271).
18. Os serviços de sincronia de e-mail em tempo real já rodam em 14 milhões de
smartphones no mundo.
19. http://twitter.com/paulorpires
20. O Twitter informa ao leitor de que plataforma partiu o texto publicado.
21. Bar no Leblon, Zona Sul do Rio de Janeiro.
22. http://bravonline.abril.uol.com.br/blog/paulorobertopires/
23. Abreviatura de Real Simple Syndication. O RSS foi definido como padrão pelo
consórcio W3C para facilitar a agregação de conteúdo armazenado em base de dados
e utiliza-se da linguagem XML (Extensible Markup Language), uma evolução do
HMTL, padrão definido pelo mesmo consórcio.
24. Já existem sites como o Alltop (http://alltop.com/) que não produzem nenhum
tipo de conteúdo; apenas recolhem RSS de outros sites e os agregam num mesmo
endereço, em geral classificados por categorias.
25. É grande a oferta de plataformas de lifestreaming. Em Lifestreamblog (http://
lifestreamblog.com/create) há uma lista de ferramentas de integração disponíveis. Já
o I Begin (http://www.ibegin.com/labs/wp-lifestream) oferece download e instalação
gratuitos e número ilimitado de RSS.
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26. http://feltron.com/
27. http://twitter.com/feltron?page=2
28. http://daytum.com/
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Resumo
A partir de uma apresentação e análise do Twitter, este artigo pretende discutir os microblogs
e três de suas características: a compressão espaço/tempo proporcionada pela oferta de
hiperconectividade, a entrega voluntária a mecanismos de autovigilância, possíveis pelo uso
de dispositivos móveis, e a concretização de um conceito de lifestream – ou vida ao vivo –,
em que o sujeito se apresenta e se configura como um conjunto de referencialidades abertas,
nas quais a distinção fora/dentro deixa de ser importante e confundem-se a escrita de si com
referências externas que também definiriam o sujeito. O trabalho propõe pensar a articulação
entre a condição pós-moderna e a condição permanente de conexão.
Palavras-chave
Twitter; Microblogs; Web 2.0.
Abstract
What are you doing now? Three issues about microblogs
From a presentation of Twitter, this paper aims to discuss the microblogs and three of its
characteristics: the compression time/space provided by the hyperconnectivity, the adherence
to voluntary mechanisms self with the use of mobile devices, and the concept of Lifestream –
or to live life – in which the subject is presented and is configured as an open set of reference.
The distinction outside/inside is no longer important and external references that define
the subject. The paper proposes think the relationship between the postmodern condition
and the condition of permanent connection.
Key-words
Twitter; Microblogs; Web 2.0.
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